Portugal conquistou, em setembro, o título mundial por equipas no VII Campeonato do Mundo de Equitação de Trabalho, disputado na Real Escuela Andaluza del Arte Ecuestre, em Jerez de la Frontera. Gilberto Filipe Silva, Bruno Pica da Conceição, Nicole Silva e Pedro Nicolau, sob a orientação de Nuno Baptista, colocaram a seleção nacional no primeiro lugar entre representantes de 22 países.
A vitória coletiva foi acompanhada pelo título individual de Gilberto Filipe Silva, com Morante, um garanhão Puro-Sangue Lusitano nascido em 2016. O cavaleiro português revalidou, assim, o título mundial da disciplina. Bruno Pica da Conceição terminou a competição individual na terceira posição.
Na classificação por equipas, Portugal somou 551 pontos, apenas mais quatro do que a França, segunda classificada. Espanha completou o pódio. A seleção portuguesa obteve os melhores resultados coletivos nas provas de Ensino e Maneabilidade, duas componentes particularmente relevantes para demonstrar a qualidade da formação dos cavalos, a precisão técnica e o entendimento entre cavaleiro e montada.
O resultado ganha especial importância pela dimensão alcançada pela competição. A edição de Jerez reuniu 74 conjuntos de 22 países, a maior participação de sempre num Campeonato do Mundo de Equitação de Trabalho.
A World Association for Working Equitation indica que a modalidade é já praticada em mais de 35 países e que a sua estrutura internacional integra 25 federações associadas. O calendário de 2026 incluiu provas na Europa, América do Norte, América do Sul e Austrália.
Esta expansão transforma a Equitação de Trabalho numa montra internacional para cavalos, criadores, treinadores, equipamentos, centros hípicos e eventos. A lista de participantes em Jerez evidencia também a circulação internacional de cavalos Lusitanos: exemplares classificados como Puro-Sangue Lusitano competiram por países como Portugal, França, Alemanha, Suécia, Reino Unido e Colômbia.
Para a fileira portuguesa, o dado é significativo. Quando cavalos de criação nacional ou de raça portuguesa competem sob diferentes bandeiras, o alcance comercial ultrapassa o resultado da seleção. Cada desempenho pode funcionar como demonstração prática de funcionalidade, versatilidade e capacidade de adaptação a diferentes mercados.
O estudo “A Economia do Cavalo em Portugal”, divulgado em 2025, estima que o setor equestre movimente cerca de 2.730 milhões de euros por ano e esteja associado, direta e indiretamente, a mais de 92 mil postos de trabalho. O mesmo trabalho atribui às atividades diretamente relacionadas com o cavalo um volume de negócios de aproximadamente 1.520 milhões de euros e 57.528 empregos.
Segundo os dados citados no estudo, Portugal exportou cerca de 9,38 milhões de euros em cavalos em 2023. A fileira abrange, contudo, muito mais do que a venda de animais: criação, treino, serviços veterinários, alimentação, transporte, equipamentos, turismo, competição, formação e organização de eventos fazem parte da mesma cadeia de valor.
Neste contexto, um título mundial não representa automaticamente um aumento das exportações. Constitui, porém, um ativo de reputação que pode apoiar a promoção comercial do país. A vitória oferece conteúdos, resultados verificáveis e protagonistas capazes de sustentar campanhas internacionais dirigidas a compradores, investidores e praticantes.
O desafio passa agora por converter notoriedade desportiva em procura económica. Isso implica aproximar federações, criadores, coudelarias, centros de treino, operadores turísticos e entidades de promoção externa; acompanhar o interesse gerado nos mercados internacionais; e criar oportunidades para potenciais compradores conhecerem os cavalos e os profissionais portugueses em contexto real.
Portugal dispõe de uma combinação difícil de replicar: uma raça reconhecida internacionalmente, uma escola equestre com identidade própria, profissionais competitivos e territórios rurais onde o cavalo continua a desempenhar um papel económico e cultural. O triunfo de Jerez confirma a excelência desportiva. A oportunidade estratégica consiste em fazer desse resultado uma plataforma duradoura para exportação, turismo, investimento e valorização da marca equestre portuguesa.