França perde 22 mil cavaleiros licenciados: um alerta para o mercado equestre europeu

A redução de 3,5% registada em 2026 reforça a necessidade de adaptar preços, formatos e propostas de valor às novas exigências dos consumidores.

A equitação francesa terminou a época de 2026 com 603 435 cavaleiros licenciados, menos 3,5% do que no ano anterior. Em termos absolutos, a Fédération Française d’Équitation perdeu cerca de 22 mil licenças face às 625 406 contabilizadas em 2025.

Os dados divulgados pelo Institut français du cheval et de l’équitation (IFCE) mostram que a contração não constitui um fenómeno inteiramente novo. Depois de um crescimento acentuado até 2012 e de uma recuperação expressiva após a pandemia, em 2021 e 2022, o número de praticantes voltou a seguir uma trajetória descendente.

A evolução merece atenção para além das fronteiras francesas. França possui uma das maiores e mais estruturadas fileiras equestres da Europa, com 26 300 empresas equinas e um volume de negócios estimado em 6,2 mil milhões de euros. O país conta ainda com perto de um milhão de equídeos, mais de 21 mil locais de criação e milhares de estabelecimentos equestres.

Neste contexto, a redução das licenças funciona como um indicador da procura disponível para uma cadeia económica muito mais ampla. Menos praticantes regulares podem significar menor ocupação de aulas, estágios e competições, mas também menor consumo de equipamento, alimentação, transporte, serviços veterinários e seguros.

O impacto não será necessariamente uniforme. Os centros mais dependentes de mensalidades regulares e de públicos jovens poderão sentir maior pressão, enquanto operadores com receitas diversificadas, ligados ao turismo, às experiências de natureza, ao bem-estar ou à formação de adultos, poderão revelar maior capacidade de adaptação.

O interesse existe, mas nem sempre se converte em prática

A diminuição das licenças contrasta com a imagem positiva que o cavalo continua a ter junto do público francês. Um estudo realizado pela Kantar para a federação francesa concluiu que 74% dos inquiridos têm uma opinião favorável sobre a equitação. Entre os adultos que não rejeitam a modalidade, 12% admitem praticá-la nos 12 meses seguintes, representando um mercado potencial próximo de 2,5 milhões de pessoas.

Existe, portanto, uma diferença relevante entre interesse e conversão. A mesma investigação identifica a proximidade, os formatos disponíveis e as condições de pagamento entre os principais fatores que podem incentivar a entrada na modalidade. O contacto com a natureza surge como a motivação mais referida, à frente da componente estritamente desportiva ou técnica.

Esta informação aponta para uma oportunidade empresarial concreta. A recuperação da procura poderá depender menos da promoção da equitação enquanto competição e mais da capacidade de apresentar experiências acessíveis, flexíveis e compatíveis com os estilos de vida atuais.

Programas de iniciação de curta duração, subscrições mais flexíveis, atividades familiares, passeios, propostas de turismo equestre e experiências associadas ao bem-estar podem ajudar a reduzir a barreira entre curiosidade e prática continuada. A comunicação sobre bem-estar animal será igualmente decisiva num mercado em que os consumidores estão cada vez mais atentos às condições de vida e utilização dos cavalos.

Um sinal para Portugal

Os números franceses não devem ser automaticamente transpostos para Portugal, mas oferecem uma referência útil. Os dois mercados partilham desafios como o custo crescente da manutenção dos cavalos, a dependência de públicos jovens e a necessidade de renovar a base de praticantes.

Para os operadores portugueses, acompanhar a evolução das licenças, a frequência da prática e as razões de abandono será essencial. Uma fileira economicamente sólida não depende apenas do valor dos cavalos transacionados ou da dimensão dos grandes eventos. Depende também de uma base alargada de consumidores que sustente centros equestres, profissionais e fornecedores ao longo de todo o ano.

A contração observada em França é, por isso, mais do que uma estatística desportiva. É um aviso sobre a necessidade de conhecer melhor o consumidor, ajustar a oferta e transformar o interesse social pelo cavalo numa relação económica duradoura.

Fontes