Novo imposto ameaça retirar 57 milhões de libras às corridas britânicas

 
O aumento da tributação sobre máquinas de jogo não incide diretamente nas apostas hípicas, mas poderá provocar o encerramento de lojas e fragilizar uma das principais fontes de financiamento do setor.

O Orçamento do Reino Unido para 2026 abriu uma nova frente de incerteza para a indústria britânica das corridas de cavalos. A partir de 1 de abril de 2027, a taxa aplicável às receitas líquidas de determinadas máquinas de jogo aumentará de 20% para 25%, abrangendo equipamentos com apostas superiores a uma libra ou prémios acima de 100 libras.

A medida não constitui um imposto direto sobre as apostas em corridas de cavalos. O problema está no efeito indireto sobre as casas de apostas físicas, cuja rentabilidade depende também das receitas geradas por estas máquinas. Se o aumento dos custos fiscais conduzir ao encerramento de estabelecimentos, o turfe poderá perder receitas provenientes dos direitos de transmissão, da publicidade, dos patrocínios e da contribuição obrigatória paga pelos operadores de apostas.

A British Horseracing Authority (BHA) estima que as corridas britânicas poderão perder até 57 milhões de libras por ano. O valor resulta de modelação económica apresentada ao Tesouro britânico e representa, nesta fase, uma projeção do setor, não um impacto já verificado.
Uma dependência que expõe toda a cadeia de valor
Segundo a BHA, quase um terço dos cerca de 350 milhões de libras de receitas anuais que as corridas recebem da atividade das apostas está ligado às lojas físicas. A autoridade considera que a subida fiscal poderá acelerar o encerramento de centenas ou mesmo milhares de estabelecimentos, reduzindo simultaneamente as receitas comerciais e a base de público do desporto.

O impacto potencial estende-se muito além dos operadores de apostas. Menos financiamento pode traduzir-se em prémios mais baixos, calendários menos atrativos e maior pressão sobre a viabilidade dos hipódromos. A médio prazo, estas alterações chegam aos proprietários, treinadores, criadores, jockeys, trabalhadores das coudelarias, transportadores, veterinários e fornecedores especializados.

Também o investimento em bem-estar equino, investigação veterinária e formação profissional poderá ser afetado. Parte das receitas do Horserace Betting Levy, a contribuição estatutária paga pelas empresas de apostas, é destinada ao desenvolvimento das corridas, à criação de cavalos e ao apoio à ciência e educação veterinárias.
A dimensão económica explica a preocupação. De acordo com dados da BHA reunidos pela Biblioteca da Câmara dos Comuns, o setor britânico das corridas gera receitas diretas superiores a 1,47 mil milhões de libras, representa uma contribuição económica anual estimada em 4,1 mil milhões e sustenta, direta e indiretamente, mais de 85 mil postos de trabalho. É ainda o segundo maior desporto de espectadores do país.

Receita fiscal contra sustentabilidade setorial
O Governo britânico justifica a subida da taxa com a necessidade de aumentar a tributação sobre máquinas consideradas de maior risco e mais associadas a danos causados pelo jogo. A medida deverá afetar aproximadamente 5100 operadores e 12 400 instalações.
O Office for Budget Responsibility estima que o agravamento da tributação gere cerca de 100 milhões de libras adicionais por ano para o Estado a partir de 2027-2028. Existe, contudo, uma diferença considerável entre esta receita fiscal prevista e as consequências projetadas pela indústria.
A BHA sustenta que a redução das margens dos operadores provocará uma consolidação acelerada da rede física. Uma análise citada pela imprensa especializada projeta cerca de 2750 encerramentos ao longo de cinco anos, embora reconheça que aproximadamente mil dessas lojas poderiam fechar devido a pressões económicas já existentes. Essa distinção é importante: nem toda a contração futura poderá ser atribuída exclusivamente ao novo imposto.
O debate coloca, assim, duas prioridades públicas em confronto. Por um lado, o Governo procura tributar mais fortemente produtos de jogo de maior risco. Por outro, uma atividade equestre com forte presença nas economias rurais depende comercialmente das empresas que operam esses mesmos produtos.

Um alerta para a economia equestre europeia
O caso britânico demonstra o risco de um setor equestre concentrar uma parcela significativa do seu financiamento numa única indústria ou canal comercial. Uma alteração fiscal dirigida às máquinas de jogo pode repercutir-se nos prémios, na criação de cavalos, no emprego rural, nos hipódromos e na investigação veterinária.
Esta exposição não é exclusiva das corridas. Competições e eventos equestres dependentes de um pequeno número de patrocinadores, receitas públicas ou operadores comerciais enfrentam riscos semelhantes quando muda a legislação, a estratégia de uma marca ou o comportamento dos consumidores.
Para as organizações equestres europeias, a resposta passa pela diversificação. Direitos audiovisuais, conteúdos digitais, hospitalidade, turismo, experiências para empresas, comércio, dados e novos modelos de propriedade podem complementar as fontes tradicionais de receita. A diversificação não elimina o risco regulatório, mas reduz a possibilidade de uma única decisão comprometer toda a cadeia de valor.
A BHA anunciou que procurará negociar com o Governo formas de mitigar o impacto da nova política. Até à entrada em vigor da taxa, em abril de 2027, o debate deverá centrar-se na dimensão real dos encerramentos, no efeito sobre as contribuições para as corridas e na capacidade do setor para encontrar receitas alternativas.
O que está em causa ultrapassa, portanto, a fiscalidade do jogo. É um teste à resiliência financeira de uma das maiores indústrias equestres do mundo e um aviso para todos os mercados em que o financiamento do cavalo continua excessivamente dependente de poucos parceiros.

Fontes