Imagens geradas por IA ameaçam a confiança no comércio de cavalos

Fotografias manipuladas em anúncios de venda levantam riscos jurídicos, reputacionais e económicos num mercado cada vez mais digital.
 
A inteligência artificial está a criar um novo problema para o comércio de cavalos: a possibilidade de alterar fotografias de venda de forma suficientemente realista para modificar a perceção sobre a condição, a capacidade ou até a identidade de um animal.

O alerta ganhou atualidade após a revista britânica Horse & Hound ter identificado fotografias aparentemente modificadas por inteligência artificial em anúncios publicados nas redes sociais. Num dos casos relatados, a edição destinada a substituir o fundo da imagem acabou também por alterar elementos do cavalo, do equipamento e dos cavaleiros. Os anúncios foram posteriormente retirados.

A mesma investigação descreve ainda a utilização de IA para remover marcas de água de fotografias profissionais. Esta prática permite reutilizar imagens sem adquirir os respetivos direitos e ameaça uma atividade económica importante para competições, criadores, cavaleiros, leiloeiras e empresas de comunicação equestre.

Quando a fotografia deixa de representar o cavalo
Editar a luminosidade ou recortar uma fotografia não tem o mesmo efeito que aumentar artificialmente um obstáculo, esconder uma lesão, modificar a conformação ou apresentar movimentos que o cavalo não executou.
No comércio equino, a imagem influencia a primeira seleção dos compradores e pode determinar pedidos de informação, deslocações, exames veterinários, pagamentos de reservas ou decisões de importação. Uma fotografia manipulada não é, portanto, apenas um problema estético. Pode interferir diretamente com uma decisão económica.
Esta assimetria de informação torna-se particularmente relevante nas transações internacionais. O comprador pode estar a avaliar um animal localizado noutro país, recorrendo inicialmente a fotografias, vídeos, resultados desportivos e documentação clínica. Quanto menor for a possibilidade de observação presencial, maior será o valor comercial da autenticidade dos conteúdos digitais.
A utilização enganadora de IA pode aumentar os custos de verificação, reforçar a desconfiança nos intermediários e prejudicar operadores legítimos. Também pode afetar transportadores, veterinários, seguradoras e agentes comerciais envolvidos numa operação que venha a ser cancelada ou contestada.

Europa já exige transparência sobre conteúdos manipulados
O problema surge num momento em que a União Europeia começou a aplicar novas obrigações de transparência. Desde 2 de agosto de 2026, o artigo 50.º do Regulamento da Inteligência Artificial estabelece regras para conteúdos gerados ou manipulados por IA.
Segundo a Comissão Europeia, uma imagem pode ser considerada deepfake quando representa uma pessoa, objeto, local ou acontecimento existente, ou plausivelmente existente, e é suscetível de parecer autêntica apesar de ter sido artificialmente criada ou modificada. Os utilizadores profissionais abrangidos devem identificar os conteúdos desta natureza, embora a aplicação concreta dependa das características e do contexto de cada utilização.
Uma fotografia de venda que altere substancialmente a aparência ou a capacidade de um cavalo poderá, assim, entrar no âmbito destas obrigações. A edição meramente auxiliar, que não modifique significativamente os dados ou o seu significado, recebe um tratamento diferente.
A legislação europeia sobre práticas comerciais desleais oferece outra camada de proteção. A apresentação global de um produto não pode enganar o consumidor quanto à sua existência, natureza ou características principais, levando-o a tomar uma decisão que não teria tomado de outra forma. Num anúncio profissional, a imagem integra essa apresentação comercial.

Plataformas começam a impor regras próprias
Alguns operadores já estão a responder antes de existir uma norma equestre comum. A política do portal britânico Horse Marketplace determina que as fotografias e os vídeos devem mostrar o animal efetivamente anunciado, ser atuais e não apresentar edições enganosas ou conteúdos gerados por inteligência artificial.
Esta abordagem aponta para uma evolução provável do mercado: as plataformas de venda poderão exigir declarações sobre a edição das imagens, conservar os ficheiros originais e remover anúncios que não permitam confirmar a autenticidade do animal.
Criadores, agentes e vendedores profissionais também terão interesse em manter um registo das imagens originais, das alterações realizadas e da ferramenta utilizada. A transparência pode tornar-se uma vantagem comercial, sobretudo em vendas internacionais de maior valor.
Para os compradores, a verificação deverá combinar vários elementos: vídeos contínuos e recentes, identificação do cavalo, resultados confirmados, exame veterinário independente e contacto direto com profissionais que conheçam o animal. As ferramentas de pesquisa inversa de imagens podem ajudar, mas não substituem a diligência sobre a identidade, a condição e o historial do cavalo.

Uma questão de confiança para toda a cadeia de valor
Até ao momento, não existe indicação pública de que os casos relatados envolvam operadores portugueses. Contudo, Portugal participa num mercado internacional de criação, competição e venda de cavalos, pelo que o risco não deve ser encarado como exclusivamente britânico.
A resposta do setor não precisa de impedir utilizações legítimas da inteligência artificial. A tecnologia pode apoiar a organização de catálogos, a tradução de anúncios, a gestão de conteúdos ou a análise de informação. A fronteira decisiva está entre melhorar a comunicação e modificar aquilo que o comprador acredita estar a adquirir.
O mercado equestre depende de reputação, referências pessoais e relações construídas ao longo do tempo. Num setor em que cada animal é um ativo singular, a autenticidade das imagens deve ser tratada como parte da infraestrutura de confiança da transação.
A inteligência artificial pode reduzir custos de produção de conteúdos. Mas, quando transforma a apresentação do próprio cavalo, o ganho imediato pode produzir um custo muito superior: perda de confiança, conflitos jurídicos e desvalorização de todo o canal digital de vendas.

Fontes